quarta-feira, 1 de outubro de 2008

DESABAFO



São dez da manhã do dia 1 de Outubro e acabei de ver na RTP1 parte duma reportagem a dizer que, em Lazarim, Caparica, uma escola tinha «importado» dos EUA um método para trabalhar com crianças deficientes, salvo erro, autistas. Poucos meses antes tinham anunciado que a Associação de Crianças Autistas, em Belém, estava a ter um apoio importante dum «especialista» dos EUA para a educação e reabilitação das suas crianças.
Quando Joe Morrow, Professor da Califórnia State University, San Diego, esteve nessa Associação, em 1977, desabafou comigo para dizer que nós não utilizávamos minimanente as nossas potencialidades. Isto deu origem a um artigo intitulado Crianças

Autistas Têm Associação em Belém, publicado no nº 1806, de Fev de 1978, no Ecos de Belém.Posteriormente, esteve na mesma Associação outro colega que teve o mesmo desabafo que eu aceitei porque penso que:
O Estado, ou os seus mandantes e funcionários, «intelectualizam» tudo e preocupam-se mais com a forma e a aparência do que com a realidade e as questões práticas.
O Estado não ajuda ou ajuda pouco e, quando ajuda, os pais também não colaboram. Parece existir uma crença geral de que tudo o que é estrangeiro é bom.O que se «avançou» desde então, em 30 anos, a não ser adquirir equipamentos que, às vezes, ficam esquecidos ou obsoletos?

Em princípios de 1978, depois da minha mulher se ter especializado em ensino integrado no Castle Priory College e de:
- termos apresentado a comunicação PORTUGAL: integration or special schools? no Seminário da

Sociedade Internacional de Paralisia Cerebral realizado em Março de 1876, em Oxford;
- preparado, em Julho de 1976, um texto de apoio sobre INTEGRAÇÃO, um ano de experiência;
- termos tido uma experiência muito reconfortante e reforçante para os educadores com uma criança «deficiente» descrita no artigo Deficiência e Condicionamento Operante, de Maio de 1977, publicado no nº 163, de ABR-JUN, de 1978, da Revista Hospitalidade, da Casa de Saúde do Telhal;
- termos publicado, em Julho de 1977, no PARQUE (do Centro de Bem-Estar Social de Queluz), o artigo Podem os

Pais Ajudar a Educar os seus Filhos Autistas? preparado em Maio de 1977, depois duma visita à Associação de Crianças Autistas, em Belém, o Centro de Bem-Estar Social de Queluz fez, em finais de 1977, uma proposta ao Ministério de Educação e Investigação Científica e à Fundação Calouste Gulbenkian para uma experiência pedagógica piloto com 10 crianças «deficientes», com e sem possibilidades de escolaridade, desde que houvesse também o envolvimento dos pais.
A experiência piloto, «prata da casa» sem qualquer «importação» dos EUA, teria apenas a duração de seis meses úteis e, se ao fim de 3 meses obtivesse bons
resultados, o MEIC deveria tomar a iniciativa de promover acções de formação para os professores, pais e outros auxiliares que fossem trabalhar neste sistema.
Neste projecto estariam envolvidos uma professora de integração destacada pelo MEIC, um psicólogo, um contínuo e, eventualmente, tarefeiros, se necessário.
A experiência custaria cerca de 360.000$00 (um professor ganhava, nessa ocasião, cerca de 12.000$00 por mês), aluguer duma sala, se necessário, e empréstimo de equipamento audio-visual como projector de diapositivos, máquina de filmar, gravador e reprodutor de som, etc.
A Fundação Calouste Gulbenkian comprometeu-se, verbalmente e a custo, a colaborar financeiramente e o Ministério poderia

emprestar o material necessário e destacar o professor. Os pais não teriam quaisquer gastos financeiros com esta experiência educativa.
Esta experiência visava utilizar essencialmente as técnicas de modificação do comportamento que tão bom resultado tinham dado com uma criança de 7 anos de idade, cuja inscrição tinha sido rejeitada numa escola especial particular muito conhecida, em Lisboa. A criança tinha frequentado nos últimos dois anos esta escola onde, com o seu comportamento, perturbava o trabalho da professora e dos colegas.
Com esta boa experiência, os pais de outras crianças entusiasmaram-se e quiseram o mesmo para os seus filhos. Talvez se tivessem

esquecido ou desconhecessem, por completo, que o trabalhofeito pelos educadores deve ser continuado em casa para potenciar os ganhos obtidos e para reduzir os custos.
Depois de alguma espera, chegou a autorização escrita, durante o período de férias de Verão. A primeira decepção do psicólogo foi quando, com o papel na mão e mais satisfeito do que um cão a abanar o rabo à chegada do dono amigo, foi dar a notícia. Contactou o pai dum dos futuros educandos, responsável pelo grupo dos pais que teria de implementar todo o processo e que, naquele momento, ia para a praia com o filho pela mão. A resposta que o psicólogo ouviu depois de ter dado a notícia, foi: “Mesmo em férias não tenho sossego?” A segunda decepção foi quando na primeira
reunião, 
os pais das dez crianças, não quiseram elaborar uma escala nem
comprometer-se a ajudar os educadores, dois de cada vez, para aprenderem, por modelagem, a «trabalhar» com os filhos em casa. Diziam que esse trabalho era para os técnicos e que eles não tinham coisa alguma a ver com isso. Aquilo que se estava a propor era uma maneira de melhorar a aprendizagem dos filhos, poupar nas despesas de educação e os pais terem em casa uma «ferramenta» sempre útil para qualquer eventualidade.

Por não haver a colaboração pretendida e inicialmente programada, a experiência não se realizou e foi interrompido o apoio que estava a ser dado à criança que tinha melhorado substancialmente. O objectivo era conseguir que essa criança, dentro de quatro ou cinco anos, fosse capaz de ajudar alguém que estivesse a vender revistas e jornais num quiosque. Ela ainda conseguiu
frequentar algumas escolas especiais, mas hoje parece estar pior do que em 1977, sentada numa varanda, a menear a cabeça e quase a não sair de casa.
Teremos de continuar sempre boquiabertos e de cabeça baixa, à espera dos «milagres» que se fazem no estrangeiro enquanto se despreza tudo o que se pode fazer cá? Os portugueses não têm demonstrado que a sua tecnologia e descobertas até são cobiçadas em muitos países? Depois do desabafo do Joe Morrow e, posteriormente, do seu colega, resta o meu, para dizer que "não se esqueçam de importar também banqueiros dos EUA que talvez até sejam mais baratos mas também mais engenhosos do que os de cá!"
Mário de Noronha

Agora, na colecção da Biblioterapia já existe o livro «PSICOTERAPIA... através de LIVROS...» (R) para orientar os que desejam ser autónomos ou ter pouca ajuda de especialistas.


3 comentários:

Anónimo disse...

Gostei deste post. É pena ser como somos enquanto não formos obrigados a avançar pelos outros.
Assim foi com a nossa entrada na CEE. Oxalá que não continuemos assim.
A BIAL bem mostra o que vale!
Continue com as ideias que tem.
"Desabafe" mas não esmoreça.

COMPINCHA disse...

Depois de me rir bastante com o seu post, já fiz uma intervenção no compincha.blogspot.com
dando o título de MILAGREIROS E TRAPACEIROS.
Boa Sorte.
CãoPincha

Anónimo disse...

A MFL faz lembrar os actores principais deste post.
Falam, falam, falam, só para dizerem mal dos outros, mas nada de útil conseguem fazer.